Marca empregadora

Sou sensato, alvo, calmo. Parece!
Sou fio de Jorge, maloqueiro. Esquece!
Ideia supremacista, autoestima, sem Nordeste.
Metro quadrado, prédio alto, essa maquete.
Empreendedorismo barato, neoliberal.
Proselitismo à direita, superficial.
Pátria, família, negócio, tudo misturado.
Deus, heróis, Legendários, papo furado!
Levam minha alma, quero minha parte.
Levam minha parte, quero minha alma.
Vendo meu trabalho, tenho dignidade.
Vendo dignidade, tenho meu trauma.
Escala 6x1, meta, prazo, indicadores.
Feedback, Day Off, Happy Hour, Emojis.
Poderia ser real, meu tempo é caro.
Tipo Memphis, Yuri, Rodrigo Garro.
Comunista de iPhone, Armani, Tommy.
Rotulam, pejoram, sem saber o nome.
Ostentação de pobre, sem postura.
Fraternidade de preto, ruptura.
Sem network, chefe por cota, segue a cartilha.
Bater de frente é foda, vagabundo socialista.
Aceite sua parte, agradeça, a labuta enobrece. 
Quem movimenta a economia, empobrece. 

Revide
Raiva. 
Alimento que sustenta um povo inteiro. 
Fica na quebrada, de casa em casa, de mesa em mesa, à Moda do Chefe.
Vai embora quando sacia a fome. 
Volta mais forte pra garantir o pão.
É o ingrediente perfeito para uma receita pronta.
A raiva tem cor.
Blackout na rede

Quando a pele preta, reprimida e revoltada,
se manifesta, é ignorada.
Seja de noite, seja de dia, não se vê.
Preta é apagada.
E quem vê, pelo espelho, lá na quebrada.
Da laje ou da casa rebocada.
Sabe que lá em cima, meu bom senhor,
preto é nada.
Topo. Lugar que preto incomoda. Sufoca!
Quer subir? Suba o morro. Se toca!
Mãos que rimam com algemas.
Balas que batem à porta.
Quando escurece, na calada,
“neguim” corre pra chegar em casa.
Com medo, sem dinheiro.
Preta, só restaram migalhas.
Vamos falar de alvo na diligência.
80 tiros em favelado. Coincidência.
Analisa tipo Freud, sufoca tipo Floyd.
Preto na contingência.
Antirracista de quarentena.
Hashtag por conveniência.
Quadrado preto na linha do tempo,
alivia a consciência.
Meritocracia imposta,
sabendo que a cor importa,
torna a disputa injusta na casa grande.
Preto, se comporta.
E quando tudo normalizar?
A vida preta ainda vai contar?
Enquanto isso, preto, no chão, tenta falar:
eu não consigo respirar.

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